DEVERÍAMOS PREGAR COMO OS PURITANOS? SIM!

Por Joel Beeke

Traduzido por: @casuisticapuritana

Certamente não desejo deixar a impressão do meu post anterior de que os puritanos eram maus exemplos como pregadores. Há muitas maneiras pelas quais podemos e devemos imitar suas pregações. Aqui estão algumas das lições que podemos aprender com eles.

1. Pregue sermões completos

Há quatro dimensões de um bom sermão. Ele deve ser bíblico, oferecendo uma explicação do significado do texto em seu contexto bíblico e histórico; doutrinário, derivando e definindo verdades do texto sobre Deus e o homem; experiencial, abordando as verdades aos corações dos ouvintes com idealismo, realismo e otimismo; e prático, dando instruções específicas sobre como os ouvintes devem responder à Palavra de Deus. 

Podemos ver essas quatro palavras como a “cadeia de ouro da pregação”. Toda a doutrina que pregamos deve estar enraizada na Bíblia, não em tradições, experiências ou especulações humanas. A experiência cristã deve ser informada e conformada às doutrinas das Escrituras, e deve permitir-se ser julgada e medida pela Palavra de Deus para que não nos desviemos para o misticismo e o emocionalismo. Nossa atividade prática deve sempre fluir da fé e do amor de nossos corações, e deve brotar da experiência espiritual baseada na verdade da Palavra escrita de Deus.

Os puritanos se destacaram no uso de todos os quatro elos dessa corrente de ouro da pregação. Considere a pregação de William Perkins (1558–1602) em Gálatas 1:12: “Porque eu não recebi [o evangelho] de homem algum, nem me foi ensinado, mas pela revelação de Jesus Cristo.” No aspecto bíblico, Perkins explicou que Paulo não aprendeu o evangelho de um professor humano como ele havia sido instruído aos pés de Gamaliel, mas em vez disso o recebeu por uma revelação de Jesus Cristo. Isso, disse Perkins, confirmou o ponto do versículo anterior, que o evangelho que ele pregou não era “segundo o homem”, ou seja, não veio do homem. Perkins propôs uma distinção entre revelação ordinária pela pregação da Palavra e revelação extraordinária por meios sobrenaturais. Ele também expôs a doutrina do ofício profético de Cristo, a quem Deus enviou para revelar a verdade (Mt 17:6; 23:8), para chamar e enviar ministros para pregá-la (Jo 20:21; Ef 4:11) e para iluminar a mente daqueles que a ouviam (Lc 24:45). Disto Perkins deu as seguintes orientações práticas e experienciais: (1) Reverencie a pregação da Palavra de Deus e obedeça-a cuidadosamente, pois Cristo é nosso Mestre nela; (2) Esteja avisado de que aqueles que rejeitam o evangelho tratam Jesus Cristo com desprezo e serão condenados por isso; (3) Ore a Cristo por corações compreensivos e submissos. Perkins também extraiu a implicação de que, como a revelação especial imediata cessou, devemos treinar professores da Bíblia em escolas teológicas, o que requer investimento financeiro por aqueles com meios, uma disposição dos pais para que seus filhos entrem no ministério e as orações de todo o povo de Deus pela bênção divina nos seminários.

2. Pregue a doutrina principal do seu texto completamente

Falei sobre o perigo de permitir que a teologia sistemática sobrepuje a exposição das Escrituras. No entanto, não gostaria de desencorajá-lo de construir doutrina em seus sermões. A questão é de foco: você explora todas as doutrinas relevantes que tocam seu texto ou se concentra na doutrina central ensinada por esse texto? Jonathan Edwards (1703–1758) foi um mestre em fazer o último, aplicando seu intelecto maciço e brilhante percepção espiritual para sondar as profundezas da doutrina particular do texto sobre o qual ele pregou. 

Um exemplo é o sermão de Edwards em 2 Coríntios 4:7: “Mas temos este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” Após uma breve exposição do texto, Edwards deduziu esta doutrina: “Deus se agrada em fazer seu próprio poder aparecer ao continuar a obra de sua graça por instrumentos como homens, que em si mesmos são totalmente insuficientes para isso.” Primeiro, ele mostrou que os pregadores são incapazes de fazer a obra de Deus nas almas dos homens caídos, pois os homens são “abandonados por Deus” por seus pecados, “espiritualmente mortos” e “em um estado de cativeiro para Satanás.” Segundo, os pregadores são meras criaturas, e a conversão é uma obra que nem mesmo os anjos podem afetar; sim, embora os pregadores sejam “não apenas criaturas, mas muito fracos e enfermos, participantes das mesmas enfermidades que seus ouvintes.” Terceiro, porque Deus chama tais homens fracos para serem pregadores e faz com que eles vençam o mundo, é evidente “que a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Co 1:25). Edwards continuou fazendo aplicações, mas vamos parar aqui para considerar quão completamente ele desenvolveu sua doutrina.

Temo que alguns pregadores hoje em dia sejam desdenhosos da doutrina. Talvez eles pensem que a exposição bíblica é de alguma forma superior à doutrina e eles zombam da teologia sistemática. No entanto, eles estão cortando seus próprios pés, pois até que a exposição passe para a doutrina, ela não informa e reforma as crenças que controlam nossas mentes. Outros pregadores podem ignorar a doutrina porque estão muito focados em oferecer aplicação prática. No entanto, aplicação sem doutrina é legalismo. Pregar sem instrução é apenas exortação infundada. Somente a doutrina fundamenta nossa fé em Jesus Cristo e constrói nossa obediência à lei de Deus sobre nossa confiança nas promessas de Deus. Embora não devamos transformar nossas congregações em supercomputadores sem alma, não devemos fugir de nossa responsabilidade de ensinar-lhes doutrina. A maneira responsável de fazer isso começa com a pregação da doutrina específica ensinada pelo texto do nosso sermão.

3. Pregue todo o conselho de Deus ao longo do tempo

Não devemos tentar cobrir toda a teologia sistemática em um único sermão: Deus, homem, Cristo, salvação, igreja e o fim dos tempos. No entanto, devemos sentir o peso da declaração de Paulo em Atos 20:26–27: “Portanto, hoje vos tomo por testemunhas que estou limpo do sangue de todos os homens. Porque não deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.” Ao longo dos anos de nossos ministérios, devemos pregar por todo o corpo da verdade revelada nas Escrituras para que o povo de Deus seja movido a confiar nele em todos os momentos e esteja totalmente equipado para adorá-lo e servi-lo.

Já notamos os sermões de Thomas Manton. Suas Obras contêm centenas de sermões que demonstram um ministério comprometido com todo o conselho de Deus. Isso aparece na variedade de textos sobre os quais ele pregou. Uma olhada no “Índice dos Textos Principais” revela que ele pregou sermões individuais de cada parte das Escrituras, bem como séries de sermões sobre o Salmo 119 (a Palavra de Deus), Isaías 53 (a morte substitutiva de Cristo), Mateus 4:1–11 (a tentação de Cristo), Mateus 6:6–13 (a Oração do Senhor), Mateus 17:1–8 (a transfiguração de Cristo), Mateus 25 (dia do julgamento), Marcos 10:17–26 (o jovem rico e a conversão), João 17 (a intercessão de Cristo e nossa salvação), Romanos 6 (união com Cristo e santidade), Romanos 8 (o Espírito Santo e nossa esperança), 2 Coríntios 5 (reconciliação com Deus), Efésios 5 (piedade, casamento e a obra de Cristo), Filipenses 3 (amor por Cristo), Colossenses 1:14–20 (a pessoa e a obra de Cristo), 2 Tessalonicenses 1:4–12 (conversão), 2 Tessalonicenses 2 (fim dos tempos e salvação), Tito 2:11–14 (santidade pela graça), Hebreus 11 (fé), a Epístola de Tiago (cristianismo prático) e a Epístola de Judas (falsos mestres). A pregação de Manton expôs seus ouvintes a toda a gama de doutrinas bíblicas ao longo das três décadas e meia de seu ministério.

Os pregadores devem se esforçar para alimentar a família de Deus com uma dieta balanceada. Ministros do evangelho, tirem algum tempo periodicamente para relembrar e refletir sobre o que vocês pregaram até agora, e comparem com a amplitude da doutrina e ética bíblica. Alguém que se senta sob sua pregação por uma ou duas décadas será educado e treinado em todo o conselho de Deus?

4. Pregue em estilo simples que pessoas comuns possam entender

Na era puritana, pregadores proeminentes na Igreja da Inglaterra adornavam seus sermões com longas citações em latim, grego e outras línguas para impressionar as pessoas com sua erudição, mesmo que muitas pessoas não entendessem o que estavam falando. Eles tentavam mostrar o quão inteligentes eram no púlpito pela maneira como juntavam palavras e frases, entretendo os ouvintes com habilidade retórica enquanto deixavam seus corações impassíveis pela glória de Cristo. Essa abordagem era frequentemente associada a uma ênfase em edifícios majestosos, arte visual e rituais solenes inventados pelo homem — formas externas de adoração que impressionavam os sentidos. O Iluminismo intelectual também começou a surgir no século XVII por meio de figuras como John Locke (1632–1704), com ênfase na racionalidade e na razão humana como o juiz de todas as coisas.

Os puritanos responderam a essas tendências da época insistindo na simplicidade bíblica da adoração, regulada somente pela Palavra de Deus. Eles ensinavam que as únicas imagens que Deus autoriza e que as pessoas precisam são “a administração correta dos sacramentos” e “a pregação viva da palavra”. Eles deram ouvidos às palavras de Paulo em 1 Coríntios 2:1–2: “E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”. Eles se recusaram a fazer da razão humana um juiz e ditador em todos os assuntos divinos, mas sim uma ferramenta e instrumento. 

O apóstolo Paulo escreveu em Gálatas 3:1 que sua pregação do evangelho havia exposto Cristo tão claramente diante deles que era como se eles tivessem visto pessoalmente Cristo sendo crucificado. Perkins disse que “as propriedades do ministério da palavra… devem ser claras, perspicazes [claras] e evidentes, como se a doutrina fosse retratada e pintada diante dos olhos dos homens”. Em vez de usar palavras que podem impressionar o ouvinte, mas deixar suas mentes sem compreensão, Perkins disse que, com relação à pregação, “quanto mais clara, melhor”.

Hoje enfrentamos tentações semelhantes, pois o orgulho e a glória do homem sempre buscam se intrometer no sagrado ofício da pregação. Muitos ministros hoje funcionam como artistas para atrair uma multidão com sua habilidade retórica, ou planejam cultos de adoração para mover os sentidos. Outros fazem do púlpito um trono acadêmico para exibir sua erudição, ou bajulam seus ouvintes tentando convencê-los de que a Bíblia satisfará as demandas da razão humana enquanto ela julga a Palavra de Deus. Contra tudo isso, devemos pregar o evangelho de Cristo com simplicidade, clareza e paixão. Se pregarmos um Cristo crucificado, então devemos entrar no púlpito com nosso orgulho e glória crucificados. Veja-se não como um grande homem elevando-se sobre a congregação, mas como o servo das crianças pequenas e menos educadas.

5. Pregue com sua vida o que você prega do púlpito

Não há substituto para a piedade da vida no pregador. Sua vida não deve contradizer sua mensagem, porque suas ações falam mais alto que suas palavras. Nada coloca fogo no sermão tanto quanto a santidade no pregador. Esta era uma marca registrada do puritanismo. Sinclair Ferguson escreve: “O casamento do verdadeiro aprendizado e da piedade pessoal estava no cerne da visão puritana. Uma nota recorrente em seu pensamento era a injunção apostólica, ‘prestem cuidadosa atenção a si mesmos‘ (Atos 20:28); ‘guardem sua vida…‘ (1 Timóteo 4:16). A piedade pessoal era o grande essencial.” 

Diretório de Westminster para o Culto Público a Deus chama “o servo de Deus” para “executar todo o seu ministério” com as seguintes qualidades: 

  • diligência (“dolorosamente”, como diz a linguagem antiga), em oposição à negligência; 
  • fidelidade, “olhando para a honra de Cristo, a conversão, edificação e salvação do povo, não para seu próprio ganho ou glória”;
  • imparcialidade, servindo a cada um o alimento do evangelho, sem negligenciar os humildes e pobres, nem mostrar favoritismo aos ricos e poderosos;
  • sabedoria, esforçando-se para moldar seu trabalho de modo que seja o mais eficaz possível em fazer a vontade de Deus, em vez de ser levado por paixões tolas ou raiva;
  • dignidade (“gravemente”), como convém a um mensageiro da palavra de Deus, evitando coisas que dariam aos pecadores a oportunidade de desprezá-lo;
  • amor a Deus e ao homem, para que as pessoas possam ver que tudo o que ele faz vem do seu zelo piedoso e do desejo sincero de fazer-lhes o bem;
  • convicção da verdade, como alguém profundamente persuadido pelo Espírito Santo de que o que ele ensina e prega é real, verdadeiro e a palavra de Deus;
  • conduta exemplar, “caminhando à frente do seu rebanho” como modelo do que significa seguir os caminhos do Senhor, e velando por si mesmo;
  • oração, “sinceramente, tanto em particular como em público, recomendando seus labores à bênção de Deus” por meio de petição e intercessão.

Você pregará para os outros, mas não pregará para si mesmo? Cuidado para não se tornar um mero profissional do ministério. Se a única razão pela qual você lê a Bíblia é encontrar textos para sermões, então como você alimentará sua própria alma?  Faça de cada vez que você abrir a Palavra um momento de meditação e oração, e imprima em sua alma o perigo de ser apenas um ouvinte, e não um praticante da Palavra (Tiago 1:22).

Conclusão: Ore pelo Poder do Espírito para uma Pregação Puritana

Catecismo Maior de Westminster resume as lições positivas que podemos aprender dos puritanos em sua declaração das normas puritanas para a pregação:

P159. Como a Palavra de Deus deve ser pregada por aqueles que são chamados para isso?

R. Aqueles que são chamados para trabalhar no ministério da Palavra devem pregar a sã doutrina, diligentemente, a tempo e fora de tempo; claramente, não com palavras sedutoras da sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e poder; fielmente, tornando conhecido todo o conselho de Deus; sabiamente, aplicando-se às necessidades e capacidades dos ouvintes; zelosamente, com fervoroso amor a Deus e às almas de seu povo; sinceramente, visando sua glória e sua conversão, edificação e salvação.

Uma frase-chave nessa declaração é: “em demonstração do Espírito e poder”, aludindo a 1 Coríntios 2:4, ou “a demonstração da qual o Espírito é o autor, e que é caracterizada pelo poder; de modo que o sentido é, a poderosa demonstração do Espírito”. Não é por acaso que a próxima pergunta e resposta no catecismo dizem que aqueles que ouvem a Palavra devem “atender a ela com diligência, preparação e oração”. Não podemos esperar nos aproximar dos puritanos na pregação se não orarmos pelo poder do Espírito que acompanhou sua pregação da Palavra.

Podemos encontrar falhas em alguns aspectos da pregação de John Flavel, mas devemos reconhecer que ela foi ungida com o Espírito Santo e com poder. Flavel pregou em tempos de perseguição, mas ele pregou com grande ousadia e simplicidade. Às vezes ele teve que reunir sua congregação na floresta para evitar ser detectado. Uma vez ele teve que cavalgar com seu cavalo até o mar para escapar da prisão pelas autoridades. Seus sermões brilhavam com luz e calor. Um dos membros de sua igreja disse que uma “pessoa deve ter uma cabeça muito mole, ou um coração muito duro, ou ambos, para sentar-se sob seu ministério sem ser afetada”. Um jovem, Luke Short, evidentemente ouviu Flavel com o coração duro, pois ele foi embora inalterado após uma mensagem sobre o horror de morrer sob a maldição de Deus. Short emigrou para a Nova Inglaterra, onde se tornou um fazendeiro que viveu mais de cem anos. Um dia, o velho olhou para seus campos e se lembrou do sermão que ouvira na Inglaterra. O Espírito de Deus pressionou a mensagem de Flavel sobre o coração do homem, e ali, oitenta e cinco anos depois do fato, Luke Short foi convertido e salvo. Sua lápide dizia: “Aqui jaz um bebê em graça, com três anos de idade, que morreu de acordo com a natureza, com 106 anos.”

Somente o Espírito Santo pode imbuir nossa pregação com tal poder duradouro e de conversão. Se você quer pregar como os puritanos, ou quer que seu pastor pregue como os puritanos, então ore! “Deus dará Sua graça e Espírito Santo somente àqueles que com desejos sinceros continuamente os pedem a Ele, e são gratos por eles” (Catecismo de Heidelberg, P. 116).

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